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Esta é uma tradução da página original em Inglês.

Alguma vez é uma boa ideia usar um programa não livre?

por Richard Stallman

Se você executa um programa não livre no seu computador, ele nega sua liberdade; a injustiça imediata é direcionada a você (*)

Se você recomenda que outras pessoas executem o programa não livre, ou as leva a fazê-lo, você está levando-as a desistir de sua liberdade. Assim, temos a responsabilidade de não liderar ou incentivar outras pessoas a executar software não livre. Onde o programa usa um protocolo secreto para comunicação, como no caso do Skype, seu uso próprio pressiona os outros a usá-lo também, por isso é especialmente importante evitar qualquer uso desses programas.

Mas há um caso especial em que o uso de software não livre, e até mesmo a recomendação a outros para usá-lo, pode ser positivo. É quando o uso do software não livre visa diretamente pôr fim ao uso desse mesmo software não livre.

Em 1983, decidi desenvolver o sistema operacional GNU, como um substituto livre para o Unix. A maneira viável de fazer isso era escrever e testar os componentes um por um no Unix. Mas era legítimo usar o Unix para isso? E era legítimo pedir a outros que usassem o Unix para isso, dado que o Unix era um software proprietário? (É claro que, se não fosse proprietário, não seria necessário substituí-lo.)

A conclusão a que cheguei foi que usar o Unix para acabar com o uso do Unix me dava legitimidade para sugerir isso a outros desenvolvedores. Eu comparava a participar de pequenas maneiras em alguma atividade maligna, como uma gangue criminosa ou uma campanha política desonesta, a fim de expô-la e encerrá-la. Embora participar da atividade seja errado por si só, desligá-la justifica a participação periférica menor, comparável ao uso do Unix. Esse argumento não justificaria ser um chefe de quadrilha, mas eu só estava pensando em usar o Unix, não indo trabalhar para sua equipe de desenvolvimento.

O trabalho de substituir o Unix foi completado quando o último componente essencial foi substituído pelo Linux, o kernel iniciado por Linus Torvalds em 1991. Nós o adicionamos ao sistema GNU/Linux, mas isso não requer o uso do Unix, então não há mais razão para usar o Unix – não mais. Assim, sempre que você estiver usando um programa não livre por esse tipo de razão, você deve reconsiderar de tempos em tempos se a necessidade ainda existe.

No entanto, existem outros programas não livres que ainda precisamos substituir, e a questão análoga geralmente surge. Você deve executar o driver não livre para um periférico para que isto te ajude a desenvolver um driver de substituição livre? (Mais precisamente, é ético para nós sugerir que você faça isso?) Sim, certamente. Não há problema em executar o JavaScript não livre em um site para fazer uma reclamação solicitando que os webmasters liberem esse código JavaScript ou façam o site funcionar sem isso? Definitivamente, mas, além disso, você deve ter o LibreJS bloqueando-o para você.

Mas essa justificativa não vai se esticar mais do que isso. As pessoas que desenvolvem software não livre, mesmo software com funcionalidades maliciosas, muitas vezes apresentam isso como desculpa, alegando que financiam algum desenvolvimento de software livre. No entanto, um negócio que é basicamente errado não pode ser legitimado por gastar alguns dos lucros em uma causa digna. Por exemplo, algumas (nem todas) das atividades da Fundação Gates são louváveis, mas não justificam a carreira de Bill Gates ou a Microsoft. Se o negócio trabalha diretamente contra a causa digna com a qual ele tenta se legitimar, isso é uma contradição de si mesmo e isso enfraquece a causa.

Mesmo o uso de um programa não livre para desenvolver software livre em geral é melhor ser evitado e não sugerir aos outros. Por exemplo, não devemos pedir às pessoas que executem o Windows ou o MacOS para que aplicativos livre sejam executados neles. Como desenvolvedor do Emacs e GCC, aceitei mudanças para fazê-los ter suporte a sistemas não livres, como VMS, Windows e MacOS. Eu não tinha motivos para rejeitar aquele código, mesmo que as pessoas usassem sistemas não livres para escrevê-lo. Seu uso de sistemas injustos não foi a meu pedido ou sugestão; em vez disso, elas já estavam usando-os antes de começar a escrever alterações para o GNU. Elas também fizeram o pacotes de lançamentos para esses sistemas.

A exceção do “desenvolvimento de seu próprio substituto” é válida dentro de seus limites, e crucial para o progresso do software livre, mas devemos resistir a esticá-la ainda mais para que ela não se torne uma desculpa para todas as finalidades para qualquer atividade lucrativa com software não livre.


Ocasionalmente, é necessário usar e até atualizar um sistema não livre em uma máquina para instalar um sistema livre para substituí-lo naquela máquina. Este não é exatamente o mesmo problema, mas os mesmos argumentos se aplicam: é legítimo recomendar a execução de algum software não livre momentaneamente para removê-lo.


Nota de rodapé: Usar o programa não livre pode ter efeitos indiretos infelizes, como recompensar o perpetrador e encorajar mais uso desse programa. Esta é mais uma razão para evitar o uso de programas não livres.

A maioria dos programas proprietários vem com um contrato de licença de usuário final que quase ninguém lê. Escondido, na maioria dos casos, está um compromisso antiético de se comportar como um vizinho mal que não coopera. Ele alega que você prometeu não distribuir cópias para os outros, ou mesmo emprestar uma cópia a alguém.

Realizar esse compromisso é mais errado do que quebrá-lo. Independente de quais argumentos legalistas eles possam fazer, os desenvolvedores dificilmente podem alegar que seu truque obscuro dá aos usuários a obrigação moral de não cooperarem.

No entanto, pensamos que o caminho verdadeiramente moral é rejeitar cuidadosamente tais acordos.

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